quinta-feira, 25 de abril de 2013

Não haverá legado na Copa 2014

A Copa de 2014 no Brasil já é um fracasso!

Essa é a frase que falo sem medo de errar, não sou um profeta, mas não é preciso muito esforço para saber que as coisas foram mal planejadas e a copa será um fracasso. Os estrangeiros que vierem ao Brasil não verão esse fracasso, as pessoas que acompanharem pela TV não verão esse fracasso, as "autoridades" não sentirão nada disso. Apenas o povo do nosso país verá esse fracasso, e vamos pagar caro por isso durante vários anos.

A Copa do mundo no Brasil, que já foi projetada como a copa da iniciativa privada é atualmente uma copa que suga dinheiro público de todas as formas. Alguns estádios estão sendo construídos totalmente com dinheiro público em lugares onde os maiores públicos de futebol nos últimos anos não chegam a 10% da capacidade dos estádios. Outros estádios estão sendo construídos por clubes em parcerias com empresas, utilizando de financiamentos do BNDES que deveriam ser usados para o DESENVOLVIMENTO do país. Fora os estádios que receberam incentivos fiscais absurtos sem uma justificativa plaúsivel. Com relação a estádios poderiamos ter uma copa do mundo somente com aqueles que já existem, com apenas algumas reformas, seriam eles Mineirão, Maracanã, Engenhão, Morumbi, (Olímpico ou Beira-rio), Arena da Baixada, Mangueirão, estádio do Arruda. Talvez um ou dois estádios precisariam de ser construídos do zero, e as reformas poderiam apenas modificar estruturas ruins. O maracanã foi reformado para os jogos pan-americanos e inacreditavelmente foi quase demolido.

Dentre os estádios novos, tive o desprazer de conhecer o novo Mineirão. Todos sabem que os estádios gigantescos foram erguidos na época auge da ditadura militar no Brasil, o objetivo era existir grandes espaços que permitissem uma aglomeração de pessoas que permitisse realizar grandes eventos de "popularização" da política, algo como políticas de pão e circo para domesticar a população. O Mineirão é um estádio que permitia a acomodação de mais de 100 mil pessoas, a 15 anos atrás tivemos jogos com 90 mil pessoas no estádio.

Dentre as características que permitiam o Mineirão ter essa aglomeração grande de pessoas estava a presença da geral, a possibilidade de se estacionar em seu entorno, a presença de grandes avenidas ao redor. Considerando que as gerais foram abolidas por uma exigência de cada torcedor ter seu lugar marcado, ainda que no Brasil temos o hábito de assistir os jogos de pé, o Mineirão foi encolhido para cerca de 70 mil pessoas. Mesmo com essa diminuição, as características básicas do estádio foram mantidas.

No último dia 21/04/2013 fui assistir Galo x Villa Nova no estádio, e vi que conseguiram acabar com uma das suas maiores virtudes. O Mineirão era circundado por estacionamentos e uma grande quantidade de árvores. A presença dessas árvores amenizava o calor do estádio e permitia uma aglomeração dos torcedores nos arredores com um certo conforto.

A primeira coisa que percebi no novo estádio foi uma grande cimento em volta. Foi construída uma grande esplanada, com o intuito de receber eventos do lado de fora do estádio, mas além de diminuir a quantidade de estacionamento disponível para os torcedores, isso criou um espaço morto em volta do estádio. Ninguém quer ficar numa área sem sombra para aguardar o início do jogo. Com essa falta de proteção, o entorno do estádio ficou mais quente e consequentemente a parte interna do estádio (que com uma nova cobertura teve a ventilação prejudicada).

Os torcedores ficaram aglomerados nas ruas em volta do estádio aguardando o máximo possível para fazer a entrada (claro, o fato de não vender bebidas alcoólicas dentro de estádios e dos preços de comidas do Novo Mineirão serem absurdos também favoreceu esse atraso na entrada). Além disso, o estádio contava com 15 portões de acesso, que foram transformados em 6 portões, que, mesmo com mais catracas criaram um grande gargalo no estádio. O mais impressionante é que as áreas centrais do estádio possuem 4 portões de acesso (2 no Leste e 2 no Oeste) e as áreas laterias do estádio possuem 2 portões de acesso (1 no Norte e 1 no Sul), ainda que a quantidade de pessoas que vão para cada setor é quase a mesma. Mesmo assim entrei no estádio relativamente fácil, com 30 minutos estava em minha cadeira.

Não vou entrar no mérito de cadeiras com lugares marcados que só são respeitadas por alguns.

Ao entrar no estádio, fiz o que faço normalmente, passei no banheiro e notei uma coisa terrível, os banheiros não possuem azulejo! Aposto que as pessoas que projetaram o banheiro nunca fizeram uma limpeza. Um banheiro sem azulejo é das economias mais porcas que pode existir, fora que os banheiros foram pintados de preto e parecem sujos.

Quando subi as escadas para a arquibancada central, notei 2 coisas, a primeira é que não fizeram um bom trabalho na estrutura, não corrigiram falhas no reboco e apenas realizaram uma pintura no chão com uma tinta cinza muito feia. A outra coisa que notei foi a distância entre as cadeiras, não há como alguém passar para buscar sua cadeira sem ter que pedir para as outras pessoas levantarem.
Reboco mal feito e pintura feia das arquibancadas do Novo Mineirão
Foto: Leonardo da Mata, eu mesmo!

Foram colocadas umas barreiras metálicas separando os setores do estádio. Essas barreiras ficam quase da altura dos joelhos das pessoas, não sei muito bem as normas, mas em caso de pânico uma estrutura dessa não é visualizada bem e acaba causando mais acidentes.

A impressão que o estádio passou é de que não está terminado, parece que foi inaugurado as pressas com várias coisas mal pensadas e executadas.

Nesse jogo fui e voltei a pé para o Novo Mineirão, pois moro a cerca de 2 quilômetros do estádio, e não tive qualquer problema para chegar.

Ontem, 24/04/2013, foi realizado um amistoso Brasil X Chile no novo mineirão, com o objetivo de demonstrar como seria um evento padrão Fifa. Apesar de não ir ao jogo ele afetou diretamente meu dia.

Para começar, o estacionamento do estádio (que como relatei anteriormente, foi reduzido) só poderia ser usado por pessoas que comprassem o ticket antecipadamente, algo razoável mesmo custando 50 reais. 

Como tratava-se de um evento Fifa, a região no entorno do estádio teve a passagem de veículos proibida e o estacionamento em várias ruas da região também proibido. Algumas pessoas não puderam sair nem chegar em casa de carro. O problema dessa medida é que, uma das avenidas que passa ao lado do estádio é uma das principais de quem precisa chegar em meu bairro. O tal planejamento padrão Fifa fez uma avenida com 3 pistas ser desviada para uma rua com apenas 1 pista, causando um tremendo engarrafamento. 

Fiquei aguardando 45 minutos por um ônibus para voltar para casa e fiquei mais 1:30 no trajeto. Coisa que normalmente gasto 20 minutos. 

Várias pessoas, não podendo estacionar próximos ao mineirão, estacionaram no meu bairro, que fica a uns 2 quilômetros do estádio, vários em local proibido, atrapalhando bastante o trânsito dentro do próprio bairro.

A constituição brasileira deixa claro que o cidadão tem o direito de ir e vir, e todos são iguais perante a lei, mas parece que as pessoas que moram nos bairros próximos ao novo Mineirão não tem esse direito. Se houvesse um planejamento sério com relação a chegada e saída das pessoas no estádio, seriam criados estacionamentos em locais próximos ao estádio, ou nas estações de transporte público, mas não houve NENHUM estacionamento construído com esse objetivo. O estacionamento que existia em volta do estádio foi diminuído causando um transtorno grande.

Um representante da prefeitura teve a cara de pau de falar que o trânsito estava problemático por conta de uma manifestação que aconteceu em uma das avenidas que dá acesso ao estádio, ou seja, se houve algum imprevisto que atrapalhe os eventos passarão pelos mesmos problemas. 

O erro está na falta de infra-estrutura viária e de transporte público e na falta de possibilidade de se chegar de carro na região. Esse representante tem que lembrar que além do jogo há uma massa de pessoas que precisa chegar em suas casas, e essas pessoas deveriam ter respeitado seu direito de ir e vir.

O mais bizarro foi a presença policial nesse evento, em minha rua NUNCA houve patrulhamento a pé, no máximo o carro da PM passa 2 vezes por dia na rua.  Quando cheguei em casa havia 6 policiais fazendo patrulhamento a pé nas proximidades, fora a quantidade de policiais que vi no entorno. Se em eventos como os jogos de 90 mil pessoas que aconteciam a 15 anos, ou no jogo de Galo X Villa não havia nem 1/10 do policiamento que vi nesse jogo, só posso chegar a conclusão que, para o governo do estado de Minas Gerais ( que comanda a PMMG), as pessoas que foram a esse amistoso e as pessoas que irão a Copa do Mundo são mais importantes que o restante da população no quesito segurança pública. Ou seja, o governo do estado rasga a constituição novamente.

Fora as tais obras de mobilidade urbana que foram prometidas para ficarem prontas antes da copa das confederação em Junho de 2013 e que perigam não ficar prontas nem para copa do mundo (sendo que no caso de BH foi prometido Metrô para a copa e trocaram por um ônibus que anda mais rápido, mas que é um ônibus e vai ter que enfrentar o trânsito dessas avenidas).

Com esses relatos eu digo, o gringo que vier ao Brasil, ou aquela autoridade não verão coisas ruins. Talvez algum desconforto relacionado aos estádios construídos porcamente, mas não terão problemas com segurança, pois vão ter um policiamento fantástico no estádio, não terão problemas com transporte público, pois linhas de ônibus especiais serão criadas, não terão problemas com trânsito, pois o governo decidiu dar férias a todos os funcionários públicos e escolas durante a Copa.

Nós, brasileiros, que vivemos nos lugares onde haverá copa do Mundo, vamos passar vergonha, pois o os legados que teremos serão estádios mediocres construídos de forma porca e desnecessária, falsa impressão que somos um lugar organizado para quem vier ver a copa, uma segurança policial fabricada para os dias de jogos que é sumariamente destituída nos dias normais, um desrespeito a constituição quando escolhem dar a algumas pessoas uma importância maior que a população local.

A copa do mundo do Brasil é tão falsa, que criaram um instrumento musical que nunca existiu nos estádios para ter a "vuvuzela" brasileira. Nos nossos estádios usamos Surdo, caixa, bumbo, tamborim, pandeiro, ou seja, instrumentos de escola de samba. 

A mídia não vai falar dos problemas dessa forma, vão inventar várias desculpas e maquiagens para os problemas, algo compreensível, pois o nosso ministro dos esportes acredita fielmente nas desculpas que são dadas.  Além disso, alguém deve estar ganhando algum dinheiro, pois com tudo que foi investido de dinheiro público alguém deve ganhar algo, no meu caso, somente transtornos para chegar e sair de casa e nada mais.

Atualização 0: Eu não fiz revisão do texto, então pode haver erros de digitação e/ou concordância.

Atualização 1: Em tempo, tudo nesse blog é copiável, desde que citada a fonte! Só não vale mudar ou tirar de contexto e falar que fui eu.

Atualização 2: O título e conteúdo desse post poderia ser o mesmo desse: 2014, a Copa que o Brasil já perdeu. ou desse: O cavalo selado já passou.

Um comentário:

Celso Jardim disse...

Creio que muito antes de a bola rolar nos gramados das 12 (doze) cidades que sediarão os jogos, a Copa já modificou o cenário político da nação. Curiosamente, uma sucessão de fatores culminaram pelo estabelecimento de um clima de indignação e consequente protagonismo político fora do comum, no cidadão.

É que o povo tem acompanhado a urgência dos preparativos para o evento, que envolve a construção de uma infra-estrutura, incluindo reformas de estádios de futebol; modernização de Aeroportos; construção de auto-estradas, etc. Tudo para se garantir o atendimento das demandas do superaquecimento do turismo, evitando os embaraços da deficiência dos serviços públicos pré-existentes.
Os meios de comunicação passaram a divulgar o conceito de "Padrão-FIFA", quando referiam-se às exigências que a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) tem feito quanto aos projetos arquitetônicos dos estádios, que tem exigido o emprego de vultosos recursos. Diante da incoerência de termos Escolas de Educação básica sem a mínima estrutura para o seu bom funcionamento; Hospitais Públicos que são verdadeiros depósitos de gente moribunda, onde o paciente entra com uma doença e sai com outra, vários setores da comunidade passaram a questionar a flagrante inversão de prioridades.
Alguns chegam a posicionar-se contra a Copa apontando essas incoerências como razão que justificariam a impropriedade do emprego de tantos recursos em um evento onde a maioria dos cidadãos brasileiros sequer terão condições de participar, em detrimento das deficiências existentes nos serviços de Saúde; Educação; Transportes, etc que permanecem sem solução.

Em seu site Oficial, a FIFA afirma ter como missão "construir um futuro melhor", buscando liderar pelo exemplo e direcionar a força do futebol e a influência que possui sobre o esporte e sobre os seus parceiros para produzir mudanças positivas na sociedade e no meio ambiente, daí o conceito do "padrão-FIFA" que a meu ver, se constitui no maior legado que a Copa do mundo de 2014 deixa ao povo brasileiro.

Só podemos entender melhor as manifestações públicas que passaram a ser notícia no cotidiano da imprensa nacional e internacional ao percebermos que o povo assimilou esse legado. Deseja e com razão, Escolas Padrão-FIFA; Hospitais Padrão-FIFA; Aeroportos e Rodoviárias Padrão-FIFA, enfim, um Brasil Padrão-FIFA. Saiba mais Em: http://celsojardim.blogspot.com.br/2013/07/o-legado-da-copa-do-mundo-de-2014.html